domingo, 3 de agosto de 2014

"Are we human or are we dancer?"

Acho muito estranho e extremamente irritante quando alguém me define como uma pessoa FORTE. Forte de que? Ah é, ele deve estar falando da minha "doença". 
"No seu lugar tenho certeza que não teria toda essa força" BALELA! Você diz isso porque está do outro lado, lugar que antes eu também ocupava, então sei o que estou dizendo. Se você, caro amigo, estivesse no meu lugar, você faria tudo como eu fiz, porque não existe outra coisa a se fazer. 
Vamos lembrar, antes de tudo, que NÃO ESTOU MORRENDO e não corri o risco de morrer. Não tenho câncer, AIDS, ou qualquer outra doença dessas super graves. Na verdade não sei (e provavelmente nunca vou saber) o que tenho, mas o mais importante é que, seja o que for, aparentemente resolveu ir embora. 
Posso voltar à minha vida agora? 
Por muitos meses resolvi manter essa história toda só pra minha família e meus amigos mais íntimos, porque, como expliquei a todos eles, quando acontece uma coisa dessas à alguém, não sabemos como nos comportar. Não sabemos se demonstrar compaixão, se ser otimistas ou xingar o mundo todo. E, contando mil vezes a mesma história, me submeto a mil reações diferentes, mas uma unânime: o desconforto, que é péssimo para os dois lados. Contar pra todo mundo o que estava acontecendo não mudaria meu quadro clínico e nem psicológico. Por que submeter as pessoas (e eu mesma) a esse desconforto? Contando o meu "quadro clínico" assim repentinamente, parece mesmo uma coisa péssima. Mas garanto que não é! Geralmente as pessoas se sentem mais furiosas com o universo do que eu mesma, com a sensação de injustiça que eu, felizmente, já superei. E fico chateada por elas. 
A questão é: perdi 85% da visão do meu olho direito. Fiz mais de 75 exames de sangue, 4 ressonâncias, 12 exames específicos da vista, gastamos mais de 8 mil euros, tomei a maior dose admissível de predinisone por 7 longos meses (ganhei 25kg), se passou quase um ano e ninguém sabe me dizer o que tive. Meu olho direito nunca mais será o mesmo, mas o que posso fazer? Não posso passar o resto da minha vida chorando a minha injustiça de "quase cega de um olho sem motivo aparente sem a certeza de que um dia a doença voltará". Em que choramingar vai mudar a minha situação atual? Se ficar com raiva do que aconteceu, voltarei a enxergar? Não. Fiz todo o possível pra tentar descobrir o motivo dessa perda, mas todos, e repito TODOS os meus exames resultaram negativos. Estou ótima, não tenho nada! Posso voltar pra minha vida agora? Não. 
Algumas pessoas não querem que eu desista de procurar a causa do meu problema, por medo que, um dia, a doença misteriosa volte e "roube" meu outro olho. Como se esse medo não fosse, ANTES DE TUDO, meu. Ninguém sabe (na verdade só o Emi sabe) os pesadelos que tinha todos os dias achando que ia ficar cega. Sonhava com o Lorenzo me chamando desesperado numa casa em chamas e eu não conseguia chegar até ele. Sonhava com o Lori já grande e eu sem saber como era o rosto dele. Sonhava com a minha vista indo embora de repente enquanto dirigia com o Lori no banco de trás. Tive insônia (também efeito colateral do predinisone) e tinha medo de dormir e acordar CEGA.  Não pensem que não me interesso pela minha própria saúde. Mas depois de ter feito todo o possível e ter confirmado com os médicos que não há mais nada que posso fazer, porque continuar numa luta infinita contra um mal que aparentemente já acabou? Isso sim me faz mal! 
Meu olho esquerdo é maravilhoso, lindo de morrer, porque não tem nenhum defeitinho. Talvez uma leve miopia devida ao esforço a mais pra compensar o direito. Mas adoro até essa miopia, porque significa que meu olho esquerdo é super dedicado e trabalhador. E confio que ele não vai me deixar na mão. Nao enxergar de um olho me trás algumas limitações. Pelo fato de que o meu "não enxergar" não se trata de ver uma "mancha preta", nesse caso seria mais simples. A mancha é branca (por causa da destruição das minhas fibras óticas) e reflete qualquer tipo de luz forte. Não posso dirigir a noite, pra fazer qualquer coisa que necessite de pequenos detalhes, fecho o olho direito. Me adaptei, porque é isso que a espécie humana faz, SE ADAPTA A TUDO! A natureza é maravilhosa.
Meu filho é a "cereja na torta" porque o amor que ele me dá preenche absolutamente todo e qualquer vazio que possa se abrir em mim. E é por ele que acordo todos os dias sorrindo, porque ele merece e precisa do meu sorriso e do meu amor. 
Não estou desistindo de mim, estou investindo na minha saúde mental. A vida dá rasteiras em todo mundo, cada um a seu modo. Uma das minhas rasteiras foi essa. Mas levanto, dou risada da fragilidade humana e da relatividade do momento e vou. 

Não sou forte, sou humana. Me deixem ser perfeitamente imperfeita.