Uma incompreensão amorosa, um pouco pra pensar, um computador e muito tempo.
Encontrar uma conexão Wi-Fi aberta não é um problema por aqui, qualquer Mc Donald's tem. E em alguns deles é possível inclusive ligar a fonte na tomada. (Y)
Enquanto procurava alguma coisa pra me distrair na internet, uma garota se aproxima da minha mesa com uma bandeja na mão. Meio tímida, me cutuca e faz sinal de "oi". Tiro o fone de ouvido pensando: "Sera que eu a conheço?", e ela prontamente me tira a curiosidade: "Queria saber se te incomodo se me sentar pra comer aqui. Não tem mais nenhuma mesa livre". "Magina, fica à vontade".
Não sabia se colocar os fones de novo ou puxar conversa e de novo foi ela que me tirou a dúvida: " Você é italiana?". Aqui essa é uma pergunta extremamente comum, vista a grande quantidade de estrangeiros que encontramos em todos os lugares. "Não, sou brasileira". "JURA? Não parece!". Normal, quantas vezes ouvi isso! "E você, de onde é?". Nunca tinha visto uma garota tão negra e tão linda em toda a minha vida. "Nairobi, Quênia".
E assim começamos a entrevista.
- A quanto tempo você mora em Roma?- Cheguei faz mais ou menos 6 anos. Saí de Nairobi e fui pra Londres, mas não era muito a minha cara. Muita chuva, muito cinza. Pensei que Roma pudesse ser mais alegre, mais parecido comigo.
- E pensou certo?- Olha, sinceramente ainda não sei responder. Gosto de Roma, da história, das ruínas, de muitas coisas, Mas também tem muitas outras que não gosto, como em qualquer outro lugar do mundo que eu morasse.
- Por exemplo? - O racismo em primeiro lugar, com certeza. A mentalidade fechada e antiga, o machismo. Mas não posso generalizar, existe muita gente boa também.
- E por que resolveu ir embora do Quênia? - Fácil, nasci e vivi até os 16 anos na maior favela da África, Kibera. Não sou uma garota feia e não era fácil suportar as tentativas de agressão. Comecei a trabalhar numa fábrica de cigarros e, mesmo ganhando uma mixaria, consegui sair dali e levar minha mãe comigo, deixando meu pai bêbado pra trás. Dois meses depois, minha mãe morreu de câncer no pulmão. Eu estudava e não queria largar a escola, mas era difícil tocar a vida sozinha. Fui morar numa casa de idosos, onde era voluntária. Fiz muitos amigos ali e me envolvi com causas políticas, manifestar, lutar pra melhorar meu país. Mas precisava ser alguém na vida. Conheci um cara num bar que me ofereceu um trabalho como modelo. E assim cheguei a Londres.
- Num bar? Você não teve medo que fosse uma proposta falsa? - Claro, mas no meio de toda a bagunça que estava a minha vida, era impossível não ver aquela proposta como uma grande oportunidade pra sair dali. Quando cheguei em Londres descobri que o cara era realmente um agente, fiz alguns trabalhos muito bem remunerados e fui tratada muito bem. Tive muita sorte, na verdade. Ele podia ser um psicopata e eu tive que confiar na palavra dele, era tudo o que eu tinha. No fim das contas eu fui percebendo que aquele não era o tipo de coisa que me faria feliz. Ser modelo significa ter uma vida fútil, sem possibilidade de vínculos afetivos por estarmos sempre viajando. Não era meu tipo de trabalho ideal. Mas, como eu disse antes, era tudo o que eu tinha. Esse meu agente me ajudou muito, perguntou o que eu queria fazer da minha vida e eu disse que queria estudar. Assim, ele me inscreveu num cursinho aqui em Roma. Já se passaram 6 anos...
- E agora o que você faz em Roma?
- Fiz 2 anos de cursinho pra poder aprender bem o italiano (ela falava italiano perfeitamente) e agora faço faculdade de artes plásticas. E você, o que veio fazer em Roma?
- Mais ou menos a mesma coisa, vim pra estudar. Mas por enquanto estão dificultando muito pro meu lado. Você também pensa às vezes o que você estaria fazendo agora se tivesse ficado no seu país?
- Penso, mas tenho certeza que não teria chegado nem na metade do caminho que eu trilhei até agora. A vida no terceiro mundo não é fácil, queria que mais pessoas de Kibera tivessem a mesma oportunidade de crescer como eu tive. Infelizmente o que eu posso fazer é acreditar que um dia as coisas serão diferentes, e quem sabe serão mesmo...
Se foram 4 horas de conversa. Aquela menina-mulher dos olhos mais negros que eu já vi me mostrou que somos muitos que enfrentam problemas, que passam por dificuldades, que às vezes tem vontade de desistir. Mas em 4 horas de conversa me mostrou também que os sonhos são a coisa mais importante que temos, a que exige mais esforço, mas a que dà a maior satisfação. E que, com um pouco de força de vontade, muita luta e um pouco de sorte, podemos fazer dos nossos sonhos a força e a estrada pra chegar onde queremos...