quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O garoto das vírgulas: uma história verídica.

Quando falamos sobre preconceito, muita gente diz que já está ultrapassado, que o preconceito hoje em dia quase não existe mais. Mentira. Talvez seja mais fácil agir como se o preconceito estivesse extinto, talvez seja mais diplomático e politicamente correto. Mas as pessoas que sofrem de preconceito sabem, mais do que ninguém, que essa palavra tão incômoda ainda está aí, em todos os cantos, em todos os lugares, na maioria das pessoas.
Quando conheci o garoto das vírgulas, ele era apenas mais um garoto que gostava de meninas. Doce, sensível, muito sensitivo. A adolescência foi passando e ele descobriu que os meninos também lhe interessavam. Certo dia, depois de alguns anos, ele me diz que assumiu sua homossexualidade.
Conheço várias pessoas homossexuais, aqui onde moro e em outras tantas cidades do Brasil e até do mundo. De todos os homossexuais que conheço, tanto meninos quanto meninas, ouço casos de preconceito, ouço histórias tristes de pessoas que são humilhadas ou excluídas, e que têm esse preconceito presente na sua vida todos os dias. Mas o caso do garoto das vírgulas me chamou muito a atenção.
Achei muito interessante o modo como ele assumiu sua opção sexual, como ele fala desse assunto hoje em dia, como lida com as pessoas preconceituosas e como ele está de bem consigo mesmo. Ele sabe que tem os amigos e as pessoas que ama ao seu lado, e isso basta. Ele não liga para o que as pessoas pensam ou dizem dele. Só ele sabe o que lhe faz bem, e ele tem maturidade suficiente para colocar isso como prioridade e assumir que ser “gay” é ser feliz.
Afinal, ser homossexual e sofrer preconceito é exatamente a mesma coisa que ser gordinho, ou magro demais, ou muito alto, ou muito baixo, ou muito branco, ou negro, ou usar óculos, ou ter um estilo diferente, seu cabelo, suas roupas, suas idéias, sua escolhas, suas opções de vida e sofrer preconceito por esses motivos. Quem nunca sofreu qualquer tipo de preconceito?
A origem da palavra “preconceito” demonstra muito bem o fato de ser um pré-conceito, ou seja, um conceito que é definido antes que se tenha verdadeiro conhecimento sobre a pessoa. Como podemos julgar alguém antes mesmo de conhecê-lo? E, mesmo depois que conhecemos, quem somos nós pra julgar?
Acredito que o preconceito, na verdade, nada mais seja do que o medo do diferente. Engraçado é que todos somos diferentes uns dos outros. Ter medo daquilo que é diferente é como ter medo de todo mundo! Se cada um de nós víssemos que ser diferente é saudável, não teríamos problema nenhum de convivência, nem de exclusão, nem qualquer outra conseqüência do preconceito.
Quem se assume homossexual perante a sociedade, sabe de tudo que pode enfrentar ao tomar essa decisão. E se mesmo assim o faz, tem um motivo muito forte: o amor. Seja ele por alguém do mesmo sexo, ou por si próprio, pois quem se ama faz de tudo pela própria felicidade, inclusive optar por algo que possa lhe trazer constrangimentos e problemas. Qualquer decisão que seja tomada por amor, deve ser mais do que respeitada, admirada.
Cada pessoa tem suas diferenças, tem suas “vírgulas”, suas particularidades. Saber lidar com isso, além de ser saudável, é um sinal de respeito pelo próximo. Cada um faz suas escolhas, e é preciso respeitar as escolhas alheias para que as nossas também sejam respeitadas.
A diversidade é maravilhosa.
Afinal, se todos fossem iguais, o mundo não teria a MÍNIMA graça.

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